"Hoje o Patrão Velho resolveu deixar o céu um pouco mais gaudério...
Levou uma gurizada pra matear com ele e deixou a nossa Querência tapada de tristeza e
dor.
Patrão Velho esperamos que esta gurizada tão faceira e cheia de sonhos alegre teus pagos
e
que eles encontrem no aconchego do teu poncho luz e paz.
Guarde-os contigo para que muito em breve o céu vire um Fandango de Galpão e não te
esqueças de amparar aqueles que aqui ficaram sofrendo por ter de matear sozinhos..."
Hoje mais estrelas encantarão nossa noite!! - Santa Maria - RS 27/01/2013
Eu realmente não sei como começar esse post. Somente hoje 2 dias após tudo acontecer, eu tomei coragem e força para vir prestar meu luto e minha solidariedade para todas as vítimas e familiares dessa tragédia terrível que aconteceu.
A tragédia
Na madrugada deste domingo 27, a boate KISS,em Santa Maria no Rio Grande do Sul pegou fogo por volta das 2:30hrs da manhã. A boate estava lotada, e nela acontecia o show da banda Gurizada Fandangueira. O fogo teria começado após um dos integrantes da banda iniciar um show pirotécnico com um artefato sinalizador. As faíscas do artefato atingiram a espuma do isolamento acústico da boate, altamente inflamável, dando início á um incêndio e uma tragédia em proporções colossais. Os números são alarmantes assim como as consequências. As vítimas, todas jovens entre 18 e 30 anos, no total 234 mortos, e mais de 100 feridos em estado grave.
Gente, eu não sei o que dizer, todo mundo viu as noticias, as fotos, os fatos, tudo sendo relatado com detalhes pela tv,radio e jornais brasileiros. Sou Gaúcha, e assim como o resto do meu 'PAIS' estamos em luto. Tudo está triste, calmo, quieto, silencioso. Eu nunca perdi ninguém em tragédias desse porte, mas qualquer ser humano com um pingo de amor ao próximo deve ter morrido um pouquinho, junto com os familiares dessas vitimas. A dor é tamanha que não conseguimos encontrar palavras pra descrever tudo que sentimos. Esse post é uma singela, porém, verdadeira homenagem ás vitimas e todos que direta ou indiretamente estão em luto por essa tragédia. Eu me coloco no lugar dessas pessoas, desses pais ligando infinitamente, esperando respostas de seus filhos que já estavam mortos. Eu imagino minha mãe e meu pai recebendo a noticia de que eu estou morta, meu corpo sendo levado por um caminhão baú para um estadio, esperando a identificação visual e oficial de que era eu mesmo. Imaginem a dor que essas familias estão passando. Eu peço encarecidamente á quem ler essa homenagem, se ponha no lugar dessas pessoas, e sinta-se na obrigação de pedir ao Patrão Velho, que rogue e zele por todos esses jovens, os quais seus futuros,sonhos,metas e vidas foram retirados nesse último domingo.
Vou deixar algumas mensagens que encontrei no facebook, e alguns relatos de sobreviventes.
Me desculpem pelo tamanho do post, se puderem leiam até o final, os relatos são realmente muito impressionantes e emocionantes.
"Os celulares das vítimas não param de tocar, e isso está doendo dentro de nós." Esse foi o depoimento de um bombeiro presente no local da tragédia em Santa Maria.
"27 de Janeiro de 2013
Nunca imaginei que uma brincadeira daria nisso!
Acompanhei o início do fogo que veio das faíscas do sparkles e se propagou pelo teto nas esponjas do isolamento acústico.
Não me apavorei porque não achei que poderia lidar com a situação, mas vi muita gente entrar em pânico, cair e desmaiar umas por cima das outros, era um mar de gente atirada. Vi que muita gente em crise acessou a porta mais próxima, que era a do banheiro e se alojaram lá dentro. Vi pessoal que trabalhava se escondendo até dentro de freezers! Quando vi que não tinha mais jeito de sair pela saída principal dei a volta na areá vip e sai pela lateral empurrando e pisando por cima de muita gente, acredito que não sairia se não fosse pela força que utilizei para passar pelas pessoas, ao sair olhava para baixo e via que pisava e cruzava por cima de mulheres e homens desmaiados. Foi uma merda sair por uma porta de no máximo 2 metros e ainda com uma mesa atravessada e todos aqueles corrimões atravessados no meio do caminho. Não vi alarme soando, só gritos, não vi luz de saída, só fumaça. Quando sai me passou na cabeça as pessoas que passei por cima e voltei para retirá-las pois não agüentava escutar berros, ver policias e bombeiros sem dar conta, porque tinha muita gente empilhada. Quando entrei tinha que escolher quem salvar, mas até aí não tinha passado na cabeça a MORTE.
Muita gente apavorada e nenhuma organização, tivemos que levar muitas pessoas desmaiadas no colo até o topo daquela subida para largar dentro de ambulâncias, uma estratégia deveria ser montada faltou para aproximar atendimento das vítimas, mas não culpo porque mal cabia duas pessoas dentro de cada ambulância
Sem ter saída para a fumaça e não podendo ver mais ninguém para poder ajudar começamos a abrir um buraco na parede, arrancar madeiras, grades, janelas destruíramos o isolamento acústico. Ao abrir o buraco na parede para entrar no caixa e um bombeiro me convidou para entrar porque sozinho não conseguiria tirar as pessoas. Entrei e pela primeira vez vi a morte pessoalmente. Vibrava a cada pessoa que saia, mas eu via que nenhum estava com vida. Vizinhos me molhavam e molhavam panos para que eu pudesse entrar mais para o meio da boate, logo um enfermeiro do SAMU me pediu para sair lá de dentro, pois tinha risco de desabar. Não acreditei e ele me mostrou que todos que saiam daí para frente estavam mortos, mesmo assim voltei, peguei uma lanterna com um policial e voltei para ver se alguém se mexia ou pedia socorro. No primeiro momento que liguei e foquei a luz na área vip vi muitos corpos, não sabia mais o que fazer, perdi forças porque vi gente pendurada em grades, vi pessoas empilhadas uma por cima das outras e não era uma ou duas dezenas, era muita gente.
Imagem que nunca apagarei da minha cabeça, não tive força física para ficar ali e tive que sair derrotado de dentro daquele buraco, não entendi a noção e o tamanho da tragédia. Vim abatido para casa, pois não agüentava a dor nas pernas e na cabeça. Acordei agora ao meio dia com amigos atrás de mim, liguei a tv e vi a relação de pessoas mortas.
Queria ter feito mais! Mas sei que tanto eu quanto meus amigos e voluntários deram o máximo.
Agradeço a todos, pois são irmãos que abraçaram a causa e davam sangue pelas vítimas."
Nunca imaginei que uma brincadeira daria nisso!
Acompanhei o início do fogo que veio das faíscas do sparkles e se propagou pelo teto nas esponjas do isolamento acústico.
Não me apavorei porque não achei que poderia lidar com a situação, mas vi muita gente entrar em pânico, cair e desmaiar umas por cima das outros, era um mar de gente atirada. Vi que muita gente em crise acessou a porta mais próxima, que era a do banheiro e se alojaram lá dentro. Vi pessoal que trabalhava se escondendo até dentro de freezers! Quando vi que não tinha mais jeito de sair pela saída principal dei a volta na areá vip e sai pela lateral empurrando e pisando por cima de muita gente, acredito que não sairia se não fosse pela força que utilizei para passar pelas pessoas, ao sair olhava para baixo e via que pisava e cruzava por cima de mulheres e homens desmaiados. Foi uma merda sair por uma porta de no máximo 2 metros e ainda com uma mesa atravessada e todos aqueles corrimões atravessados no meio do caminho. Não vi alarme soando, só gritos, não vi luz de saída, só fumaça. Quando sai me passou na cabeça as pessoas que passei por cima e voltei para retirá-las pois não agüentava escutar berros, ver policias e bombeiros sem dar conta, porque tinha muita gente empilhada. Quando entrei tinha que escolher quem salvar, mas até aí não tinha passado na cabeça a MORTE.
Muita gente apavorada e nenhuma organização, tivemos que levar muitas pessoas desmaiadas no colo até o topo daquela subida para largar dentro de ambulâncias, uma estratégia deveria ser montada faltou para aproximar atendimento das vítimas, mas não culpo porque mal cabia duas pessoas dentro de cada ambulância
Sem ter saída para a fumaça e não podendo ver mais ninguém para poder ajudar começamos a abrir um buraco na parede, arrancar madeiras, grades, janelas destruíramos o isolamento acústico. Ao abrir o buraco na parede para entrar no caixa e um bombeiro me convidou para entrar porque sozinho não conseguiria tirar as pessoas. Entrei e pela primeira vez vi a morte pessoalmente. Vibrava a cada pessoa que saia, mas eu via que nenhum estava com vida. Vizinhos me molhavam e molhavam panos para que eu pudesse entrar mais para o meio da boate, logo um enfermeiro do SAMU me pediu para sair lá de dentro, pois tinha risco de desabar. Não acreditei e ele me mostrou que todos que saiam daí para frente estavam mortos, mesmo assim voltei, peguei uma lanterna com um policial e voltei para ver se alguém se mexia ou pedia socorro. No primeiro momento que liguei e foquei a luz na área vip vi muitos corpos, não sabia mais o que fazer, perdi forças porque vi gente pendurada em grades, vi pessoas empilhadas uma por cima das outras e não era uma ou duas dezenas, era muita gente.
Imagem que nunca apagarei da minha cabeça, não tive força física para ficar ali e tive que sair derrotado de dentro daquele buraco, não entendi a noção e o tamanho da tragédia. Vim abatido para casa, pois não agüentava a dor nas pernas e na cabeça. Acordei agora ao meio dia com amigos atrás de mim, liguei a tv e vi a relação de pessoas mortas.
Queria ter feito mais! Mas sei que tanto eu quanto meus amigos e voluntários deram o máximo.
Agradeço a todos, pois são irmãos que abraçaram a causa e davam sangue pelas vítimas."
"Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça. / A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta. / Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa. / A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013. / As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada. / Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa. / Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio. / Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda. / Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência. / Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa. / Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram. / Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo? / O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista. / A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados. / Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro. / Mais de duzentos e trinta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos. / Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal. / As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso. /Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu. /As palavras perderam o sentido."
Fabrício Carpinejar, poeta gaúcho
Deus, tenha piedade, dê força, fé e conforto á esses pais!
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito o fruto de vosso ventre Jesus...


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